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téchne 59 | fevereiro, 2002
Sistemas construtivos

Popular com tecnologia

Reportagem Ubiratan Leal

Condomínio de habitações populares em Curitiba tem frames de madeira como estrutura e painéis de OSB ( oriented strand board ) nos fechamentos. Obra desmistifica uso de materiais industrializados como "coisa de rico".

O conceito, a tecnologia e até o projeto vieram dos Estados Unidos.

Mesmo assim, o light wood frame chega ao Brasil como una alternativa em sistemas construtivos industrializados, sobretudo para habitação de interesse social. O método foi empregado nas obras do Porto Primavera, em Curitiba, e a ligação com os Estados Unidos é tão grande que a construtora Malacon se refere ao empreendimento e ao sistema como UShome, em vez de chamá-lo pelo nome do condomínio.

Se a tecnologia veio da América do Norte, os materiais são predominantemente nacionais. Na realidade, apenas o OSB (chapas de fibras orientadas, em inglês) não foi produzido no Brasil. Como a produção do composto resistente a cupins não havia começado na época em que se iniciou as obras do segundo módulo, a construtora Malacon foi obrigada a usar o material importado da Alemanha. O OSB anticupim só passou a ser produzido no Brasil no início deste ano. Com insumos made in Brazil , o custo relativo do sistema cai e se toma mais competitivo em comparação à construção de alvenaria. "Estimo que tenha saído 20% mais barato do que em alvenaria", afirma Maurício Trindade Malafaia, diretor da Malacon.

"Na verdade, só se construíssemos um edifício igual de alvenaria teríamos condições de saber”. De acordo com a construtora, a obra custou cerca de 250 reais o m². ( Veja o orçamento real, completo desta obra na edição de fevereiro de Construção Mercado ).

O perfil do empreendimento buscou potencializar esse efeito. Divididos em dois módulos, os oito apartamentos possuem 50 m² distribuídos em dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. O bairro de Vila Hauer, a 8 km do centro de Curitiba, tem um padrão econômico de classe média.

 

Empreendimento: Ushome - condomínio Porto Primavera
Início: outubro de 2001 (primeiro módulo) e dezembro de 2001 (segundo)
Término: dezembro de 2001 (primeiro módulo) e janeiro de 2002 (segundo)
Custo total: 120 mil reais (oito Casas)
Área construída: 440 m²
Localização: Bairro Vila Hauer, em Curitiba - PR
Número de apartamentos: oito
Descrição: dois módulos de dois pavimentos
Forma de comercialização: locação

O modelo de comercialização do empreendimento já procura se adequar ao público com renda mais baixa. Por isso, as unidades não serão vendidas inicialmente. "Ainda há uma certa resistência no Brasil a casas de madeira e, se eu tentasse vender, poucos comprariam e eu teria de baixar muito o preço", afirma Malafaia. Por isso, a construtora preferiu alugar as unidades. Como forma de controlar desempenho da edificação, o contrato de aluguel prevê a vistoria periódica por parte da empresa.

De acordo com o material de divulgação, o conceito básico do light wood frame existe há cerca de 150 anos nos Estados Unidos. De lá para cá, as mudanças limitam-se a pequenos aperfeiçoamentos e modernização de alguns materiais. O principal motivo da longevidade do sistema seria a solidez das edificações, levando-se em conta que as condições ambientais - como variações de temperatura, ventos e terremotos - são mais agressivas nos Estados Unidos do que no Brasil. Além disso, a fexibilidade do projeto daria uma certa polivalência ao método construtivo, que poderia ser empregado em edificações de diversos formatos e estilos. "O projeto é simples de encomendar, há programas de computador ou sites da internet que fazem isso rapidamente", comenta Malafaia. "O importante, na verdade, é executar certo”.

 

PERFIS "I" DE MADEIRA
O suporte de laje do primeiro pavimento é feito com perfis "I" de madeira, com alma de compensado no módulo 1 e de OSB no 2. O vigamento é biapoiado nas paredes externas estruturais e fixado de forma não-rígida, com 6 m de distância entre cada apoio. A estrutura da cobertura conta com tesouras montadas com conectores metálicos do tipo gang-nail ; a cobertura é de telha asfáltica. As peças estruturais de compensado ou madeira maciça são ligadas com chapa metálica; as fibras orientadas empregam cola fenólica.

FOGO CONTROLADO
As peças horizontais entre os pilares diminuem a velocidade de propagação das chamas e funcionam como barreira. O princípio é simples: o fogo rompe o gesso acartonado e ataca a parte de baixo da estrutura. Com as barreiras, todo oxigênio é consumido dentro da parede antes que o fogo danifique gravemente a estrutura. A edificação só corre risco de ruir quando o incêndio se alastrar por toda a casa, incluindo a parte de cima dos pilares.

Execução

Como em boa parte das casas industrializadas, o único elemento moldado in loco é o radier da fundação. No caso da UShome, a peça possui 10 cm de espessura com concreto de 18 MPa e baldrames com 30 em de largura, 15 cm de altura e armados com vergalhões de 20 mm na parte inferior. Sob o radier foi utilizada lona vinílica, como barreira de umidade e uma camada de pedra britada.

De resto, praticamente toda a estrutura e os fechamentos são constituídos por madeira. A estrutura é composta por frames de araucária e os fechamentos externos são chapas de compensado de pinus no módulo 1, e OSB (chapa de fibras orientadas) no módulo 2. Todas as peças de madeira foram tratadas em autoclave com preservativo CCA (arseniato de cobre cromatado) para torná-las resistentes a cupims e umidade.

A estrutura de cada sobrado foi erguida em quatro dias, seguindo os procedimentos mostrados no passo a passo das páginas anteriores. O contraventamento é realizado por chapas de OSB pregadas na parte externa dos montantes e por fitas de aço galvanizado constituindo tirantes em forma de "x". O fechamento externo é de chapas de compensado ou OSB pregadas à estrutura e revestidas com siding de madeira nas fachadas frontal e posterior. Nas laterais, externamente ao frame , adotou-se alvenaria aparente de tijolos apenas para efeito estético. A impermeabilização das paredes externas é constituída por papelão alcatroado, grampeado sobre a chapa de OSB antes do revestimento final.

Como em boa parte dos sistemas de construção norte-americanos, o fechamento interno conta com gesso acartonado. As instalações elétricas e hidráulicas são introduzidas nos vãos internos aos montantes.

Poucos sistemas especificados nos projetos norte-americanos sofreram alterações por causa da cultura brasileira. Um d os casos de mudança foi nas instala çõe s, com PVC em vez de polietileno r e ticulado. O material foi e scolhido porqu e não haverá tub u lação de água quente, já que as casas contarão com chuveiro elétrico. A mudança no tipo de calha foi motivada por questão estética. "O produto com desenho típico das casas norte-americanas é de alumínio, não de PVC", diz Maurício Malafaia. Outro componente alterado foi a cobertura, originalmente de shingles que elevariam o preço da obra.

No entanto, certos "Luxos" foram assumidos, como as esquadrias de PVC, pouco comuns em empreendimentos de baixo e médio padrão. As janelas de PVC são fixadas com conectores metálicos aparafusados nos montantes do frame, e as portas, já com as guarnições, são preliminarmente grampeadas á parede e depois travadas com espuma expansiva.

    JEITÃO NORTE-AMERICANO
Apesar de mais caras que as esquadrias de alumínio, as janelas de PVC foram empregadas para reforçar o caráter norte-americano do empreendimento. Os demais itens de acabamento são simples, como carpete. A medida buscou abaixar o custo de obra e o preço de comercialização de cada unidade

Por contar com madeira na estrutura e nos fechamentos, o cuidado com a proteção ao fogo deve ser redobrado no projeto. O OSB só pode entrar em combustão depois de exposto a chamas entre uma hora e uma hora e meia, de acordo com as normas norte-americanas. Além disso, um artifício simples freia o desenvolvimento do fogo num eventual incêndio: a colocação de barreiras de fogo entre os montantes. "A idéia dos norte-americanos não é deixar a casa intacta, mas, permitir que os moradores saiam ilesos e o corpo de bombeiros tenha tempo de chegar e apagar o incêndio", afirma Hídio Jorge Matos, que trabalhou na montagem desse tipo de casas nos Estados Unidos e presta consultoria no Brasil. "Não adiantaria a casa ter materiais resistentes a várias horas de incêndio se o sistema favorecesse a rápida propagação do fogo", completa.

Pronto o radier, todo resto é montagem. Paliteiro das estruturas de paredes é preparado sobre a laje e levantado como tilt up

Concretagem do radier. Hidráulica, elétrica e barreiras de umidade vistas nas extremidades das ancoragens
 
Início da montagem. Fixação das peças horizontais. Sob essas peças coloca-se isolamento de neoprene.

Visão da modulação de paredes internas e externas.
 
Após a marcação de janelas, portas e montantes é feito o destacamento dos top plates.

Fixação de peças verticais (montantes) aos top plates.
 
Visão geral das paredes já montadas e empilhadas.

Levantamento (tilt up) da parede.
 
Visão geral das paredes fixadas em sua posição final e colocação do vigamento do piso do primeiro pavimento.

Colocação dos layers de compensado utilizado como laje do primeiro pavimento. As camadas de compensado são coladas e pregadas entre si.
 
Detalhe da disposição das juntas da laje de compensado.

Colocação das chapas de OSB para vedação externa e corte dos vãos de janelas e portas.
 
Colocação do vigamento .

MADEIRA DE CARA NOVA

Material composto de fibras de madeira faz os fechamentos e tem até função estrutural na UShome

Apesar de só ser utilizado em um dos módulos da UShome, o OSB ganha destaque por ser pouco empregado na construção civil. O interesse da chilena Masisa, principal fornecedor do produto no Brasil, em difundir o material é tão grande que a empresa doou as chapas e vigas utilizadas na UShome.

Apesar da aparência lembrar chapas de aglomerado, a resistência do OSB permite o uso até em elementos estruturais. Em lajes, as chapas de 18 mm com espaçamento entre vigas de 40 cm têm capacidade de suportar 950 kg/m². Em paredes e revestimento de telhados, usando-se o material com 12 mm de espessura e espaçamento entre suportes de 61 cm, a capacidade de suporte atinge 90 kg?m².

O processo de produção é o principal responsável por essas características. Depois de descascadas, as toras são alinhadas e seguem para a viruteira, que formará as tiras. Estas tiras vãs para o umedecedor, que homogeneíza a quantidade de água em cada uma, já que cada tora tem um índice diferente. As tiras, secas com umidade entre 3 e 5%, seguem para o misturador, onde são envolvidas por resinas sintéticas, parafina e cupinicida. O formador de camadas coloca a primeira e a quarta camadas no sentido longitudinal e a segunda e a terceira no sentido transversal. A peça é transportada para a prensa contínua de 44 m, onde é prensada a quente (temperatura de 190ºC) em espessuras que podem variar de 6 a 40 mm. O resultado é um material compacto que, segundo o fabricante, praticamente não possui vazios internos.

Durabilidade

No caso do emprego na construção civil, os maiores cuidados relativos ao OSB devem aparecer na fase de execução. O maior risco é de o material não estar completamente isolado da umidade, o que poderia provocar a proliferação de fungos. "Deve-se 'envelopar' a casa, ou seja, instalar papelão alcatroado em todas as paredes externas", recomenda André Morais, supervisor técnico de produto da Masisa. Segundo ele, um cuidado no uso é não lavar pisos desprotegidos, como em salas e quartos, com água.

Em relação a cupins, o risco já é bem menor. A Masisa informa que testes realizados na América do Norte, na Europa e no IPT indicaram mortandade de 100% dos cupins. "Utilizaremos as dosagens verificadas na preparação das placas que se prestaram a esses ensaios para uma produção inicial, até o momento em que as empresas chegarem às suas próprias dosagens de veneno", explica Morais, Os cupinicidas são adicionados à resina de colagem. Como o OSB não possui camadas de cola como o compensado, pois a substância é misturada e prensada com as tiras, os insetos xilófagos ficam mais expostos ao veneno.
Propriedades do OSB
Espessura da placa (mm) Retinilidade
(mm/m)
Densidade
(kg/m²)
Umidade
(%)
Resistência à
flexão (N/mm²)
Resistência à
tração (N/mm²)
Inchamento
24 h
Maior eixo Menor eixo
6 a 10 1,5 mm/m 640 ± 40 9 ± 4 4,8 1,9 0,34 12%
11 a 18 0,32
19 a 25 0,30
26 a 40 580 0,30
Fonte: Masisa
 
FÔRMAS DE CONCRETO
Grupo irá monitorar desempenho do OSB para ser utilizado como fôrma

Além das aplicações em fechamentos e vigas secundárias, o OSB também está em testes para ser utilizado como fôrma para concreto. O estudo é resultado de uma parceria entre a Masisa, a Soma e o CTE (Centro de Tecnologia de Edificações).

O projeto começou em janeiro e, de acordo com a estimativa inicial, será concluído em seis meses. Nesse tempo, o material será testado em cinco obras em São Paulo e os resultados serão aproveitados na elaboração de um manual de uso do OSB em fôrmas. "O principal objetivo é estudar in loco o desempenho das chapas e poder especificar as variações mais adequadas para o acabamento"; afirma a consultora do CTE, Eliana Taniguti.

Para adequar o estudo à realidade construtiva brasileira, as obras escolhidas possuem características diferentes. "Pretendemos pegar tanto obras racionalizadas como outras mais tradicionais", explica Taniguti.

Ficha técnica
construção e incorporação: Malacon; consultoria: Hídio Jorge Matos; projeto: Homestyles; concreto: Lafarge; aço: Gerdau; argamassas: Votoran; corantes: Bayer; estruturas de madeira: Dinap; fechamentos de madeira: San Marino; chapas de fibras orientadas de madeira: Masisa; sistemas de fixação: Hilti e Gerdau; conexões metálicas: Kofar; isolamento: Riopel; tubulação: Tigre e Astra; fiação: Pirelli, Daisa, Astra e Pial Legrand; portas: Eucatex; ferragens: Yale La Fonte; gesso acartonado: Knauf; esquadrias de PVC: Irmãos Petroli; cobertura: Onduline; piso laminado: Eucatex; piso-box: Astra; carpete: Fademac; siding: Wall Revest; calhas: Cacupé e Astra; tinta: Eucatex .
 
   
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